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Janeiro: o que a vida pode esperar de nós no ano que se inicia?

Psicologia

08

jan 2020

O primeiro mês do ano – mês carregado de simbolismos, circunstâncias e características culturais peculiares – pode ajudar muitas pessoas a olharem para suas próprias condições psíquicas e existenciais, suas disposições para a vida e para novos projetos. Pode, também, revelar as impotências e as dificuldades dessas mesmas pessoas em relação às condições em que vivem, pensam e sentem, funcionando, portanto, como uma espécie de lupa que amplia e revela as realidades objetivas e subjetivas em que estão vivendo (e aceitando viver).

Janeiro, de alguma forma, nos ajuda a enxergar a realidade mais íntima que nos constitui: a realidade dos nossos pensamentos, sentimentos, desejos, afetos, emoções e comportamentos. Ajuda a enxergarmos a realidade do nosso psiquismo, das nossas maneiras de ser, agir, sentir e pensar – a realidade do que verdadeiramente somos, podemos e sabemos. Em uma só expressão, a realidade do nosso “eu”.

À realidade do “eu”, Janeiro corresponde com uma possibilidade ímpar: a possibilidade de fazermos uma profunda autoanálise das nossas vidas, dos caminhos que já percorremos e dos rumos que queremos tomar. Não há, no ano, oportunidade de tantas reflexões espontâneas sobre o nosso passado e nosso futuro como as proporcionadas pelas características culturais de Janeiro. Vejamos o porquê.

Como se fosse uma lupa, Janeiro favorece a percepção da condição em que se encontra o nosso psiquismo. O que você pode descobrir sobre si mesmo nesse mês?

Fim de ano, explosão de sentimentos

Em Dezembro – último mês do ano –, os usos e costumes da nossa sociedade nos convidam a participar de festividades e eventos com alto teor afetivo: congraçamentos e confraternizações nos ambientes profissionais e acadêmicos em que estamos inseridos e, mais intensamente ainda em função do Natal, as perspectivas e os planejamentos de mais congraçamentos e confraternizações junto aos nossos familiares e pessoas queridas. Todos esses movimentos produzidos pela nossa cultura acabam por mobilizar incontáveis quantidades e qualidades de sentimentos-pensamentos em nossas cabeças e em nossos corações.

Fim de ano, portanto, é um tempo que nos convoca às reflexões. A sabedoria intrínseca à humanidade escolheu esse momento para, com toda  a força do seu simbolismo, informar a todos os homens sobre a face da Terra algumas condições fundamentais à sua Saúde Mental: de tempos em tempos, faz-se necessário que paremos tudo o que estamos fazendo para reorganizarmos as nossas forças, que olhemos para as nossas raízes existenciais, que fechemos alguns ciclos e iniciemos outros.

Em qualquer lugar do mundo, a “virada de ano” sempre mexeu com os sentimentos humanos. Tanto por conta da quantidade de mobilização afetiva que Dezembro possibilita, quanto pela quantidade de percepções que Janeiro suscita. Falemos mais sobre elas.

Nossas percepções em Janeiro

Terminado o mês de Dezembro e a sua capacidade terapêutica de nos colocar frente a frente com os balanços gerais das nossas vidas, Janeiro, normalmente, começa conjugando duas grandes questões: por um lado, uma espécie de ressaca existencial (produto das profundas reflexões e imersões a que Dezembro nos convida-obriga) e, por outro lado, um misto de autocobrança, ansiedade e questionamentos em relação ao que faremos de nossas vidas. Ao mesmo tempo em que estamos digerindo toda a mobilização afetiva experimentada em Dezembro, passamos, também, a nos ver às voltas com as questões relacionadas ao ano que se inicia.

Janeiro carrega, em si, a simbologia daquilo que precisa (ou pede) para ser iniciado – mesmo que reiniciado.

Janeiro favorece mergulhos introspectivos e reflexões sobre a vida

E, por isso, Janeiro pode ser comparado a uma lente capaz de nos ajudar a olhar para nós mesmos. Vejamos um exemplo, considerando que a maior parte das pessoas entra em “férias” durante Janeiro: o que fazer nas férias, trabalhar nas férias, tédio nas férias, raiva do tédio nas férias, medo do tédio, com quem passar as férias, dificuldade em ficar com a família durante as férias, cansaço nas férias, ansiedade pelo fim das férias, desejo de que as férias não acabem nunca ou, ainda, desejo incontrolável de que as férias acabem logo, podem dizer muito sobre aspectos importantes da vida, dos pensamentos e dos sentimentos de uma pessoa.

Janeiro propõe começos (e recomeços), propõe planos, perspectivas e preparações. Objetivos. E, para tanto, propõe análises (do passado, do presente e do futuro), propõe estudos, estratégias e recursos. Frente a tantas questões, dificilmente um psiquismo não se sente tentado a olhar para si mesmo e a verificar as suas possibilidades, os seus desejos, os seus limites e os seus potenciais. Janeiro, assim, cheio de circunstâncias, ideias e simbologias, pode ser uma lupa por meio da qual ampliamos, para as nossas próprias considerações, as condições psíquicas e existenciais em que nos encontramos.

Então, o que é que Janeiro tem de especial?

A resposta não é tão complicada assim: Janeiro tem tempo de sobra para nos empurrar à reflexão (31 dias…), tempo recheado de simbolismos e circunstâncias com alto poder de nos convidar à vida (início de ano, todo resto do ano à frente, volta das férias…) e, principalmente, o fato de sabermos que não cabem mais as justificativas que usávamos para postergar novos projetos (como, por exemplo, “está todo mundo muito cansado”, “temos que esperar passar as festas de fim de ano”, “vamos esperar o ano começar e as coisas voltarem ao normal”).

Sim: Janeiro é uma lupa voltada para nós mesmos e nos oferece uma chance de escaparmos das automatizações comportamentais e intelectuais mecânicas às quais nos submetemos ao longo do ano. Mas… será que aproveitamos bem essa oportunidade?

Será que aproveitamos, adequadamente, as oportunidades que Janeiro nos possibilita de pensarmos sobre as nossas vidas?

Aproveitando a lupa

Alguns de nós, sim. Muitos de nós, não. Algumas pessoas conseguem aproveitar as oportunidades que a vida lhes dá e, frente às circunstâncias que trazem informações sobre si mesmas, agarram-se a essas informações e procuram utilizá-las a seu favor. Janeiro, então, pode ser um mês terapêutico a essas pessoas. Suas circunstâncias e simbolismos levam-nos a olhar para dentro de nós mesmos e a vermos, de forma ampliada, como estamos organizados ou desorganizados, prontos ou incompletos para vários processos.

Se temos novos janeiros – janeiros que sempre nos convidam a novas vidas -, devemos agradecer ao inconsciente coletivo de uma humanidade que reconhece a importância da pausa, da introspecção e da autoanálise em nossas vidas de vez em quando. Carros precisam de revisão, aparelhos eletrônicos portáteis precisam ser recarregados, fatos e histórias precisam ser reinterpretados, o céu, periodicamente, precisa descarregar sua eletricidade e as terras precisam de contínuas aragens de tempos em tempos.

O Ser Humano, muito mais complexo e muito mais sensível, criou para si uma série de oportunidades para, também, descarregar suas tensões, arar suas ideias e seus sentimentos, recarregar suas energias e reinterpretar suas histórias de vida. Essas várias oportunidades estão espalhadas ao longo do ano e são os aniversários, os finas de semana, as datas comemorativas, os rituais de passagem e os grandes costumes, como casamentos e velórios.

Porém, as circunstâncias simbólicas de Janeiro talvez sejam de uma natureza mais extensa e inescapável – já que, de um mês, ninguém escapa. Assim como ninguém escapa de suas próprias condições existenciais e psíquicas – condições que o primeiro mês do ano, como uma lupa, tem o dom de evidenciar com a sua original capacidade de nos colocar frente a frente com a nossa própria consciência, apontar-nos o dedo e nos perguntar:

o que a vida pode esperar de nós no ano que se inicia?

Fonte: www.janeirobranco.com.br


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